sexta-feira, 17 de junho de 2011

AS ASSEMBLEIAS DE DEUS - Os campos brancos representavam o trigo que deveria ser colhido... Pr Elienai Cabral

Amado Pr. Renato Moura
Estou enviando-lhe o artigo do pastor Elienai Cabral.
Acredito que o irmão irá gostar!

São Paulo, 17/06/11
Pr. Eliezer Cohen
Jornalista e Escritor


AS ASSEMBLEIAS DE DEUS 
E OS FUNDAMENTOS DA FÉ CRISTÃ


Artigo escrito por Elienai Cabral, publicado na revista Ensinador Cristão edições CPAD, de abril a junho de 2011, às páginas 14 a 16. O pastor Elienai é presidente da Assembleia de Deus em Sobradinho, DF, articulista, escritor e comentarista.

   "As palavras de Jesus são incisivas quando diz ‘Levantai os vossos olhos e vede..." (Jo 4.35). Os campos brancos representavam o trigo que deveria ser colhido antes que se perdesse. Jesus convida seus discípulos para que vissem com olhos espirituais aqueles campos. O desafio tem uma visão para o mundo. Jesus o via como ‘um campo branco para a ceifa.’ Entretanto, nesta oportunidade, quero inverter o sentido de mundo para a Igreja e fazer uma aplicação centrípeta para a nossa Assembleia de Deus.

Nesta reflexão, quero conduzir nossa visão para os nossos campos eclesiásticos e avaliar a sua maturação histórica. A realidade presente e a perspectiva futura da Igreja no Brasil e no mundo nos induzem a considerar nossa história, avaliar nossas ações ao longo dos anos e corrigir, se necessário, nossas perspectivas para o momento do centenário de nossa igreja.

O que é a Assembleia de Deus?

   Sem nenhuma intenção discriminativa, a Assembleia de Deus é uma igreja que brotou da semente pentecostal da Rua Azuza, em Los Angeles, Califórnia, EUA, em 1906, e veio para o Brasil em 1910, firmando-se como igreja em 1911. Esse mover do Espírito abriu caminho desde o Dia de Pentecostes, e as águas vivas trouxeram o avivamento que rompeu com as barreiras litúrgicas da época em 1901. E um novo Pentecostes iniciou-se. Era o começo do pentecostalismo moderno.

   Em 1906, o pastor negro William Seymour abriu espaço para o Espírito Santo operar na igreja da Rua Azuza, na Califórnia, e as pessoas foram batizadas no Espírito Santo, falando em outras línguas. E os dons espirituais se manifestaram na Igreja. Sinais e prodígios começaram a acontecer como no primeiro século da Era Cristã. O fogo do Pentecostes acendeu a partir daquele movimento da Rua Azuza, e a chama pentecostal espalhou-se pelo mundo. Esse mesmo fervor aqueceu o coração de Daniel Berg e Gunnar Vingren. Por isso, eles deixaram os Estados Unidos e vieram para o Brasil, dando início à Igreja Assembleia de Deus em 1911.


Quem somos?

   Como Assembleia de Deus, somos uma igreja que tem a Bíblia como sua única regra de fé e prática. Nossa práxis doutrinária está no credo apostólico. Por isso, repudiamos qualquer idéia que subtraia ou acrescente conceitos de fé ao que já está escrito nas Escrituras.

   Como movimento pentecostal, discordamos da acusação anti-pentecostal que declara que ‘nós damos primazia à experiência, e menosprezamos o conhecimento da Palavra de Deus.’ Entretanto, essa avaliação é imprópria porque os acusadores desconhecem que o ‘movimento pentecostal’ tem seu alicerce e conhecimento na Palavra de Deus. Não temos doutrinas ou textos bíblicos isolados para basear aquilo que cremos. O pentecostalismo não é uma nova doutrina nem qualquer tipo de inovação cristã.

   Nossa igreja tem na sua estrutura teológica o mover do Espírito Santo que torna mais clara as doutrinas bíblicas. Não temos uma nova paracletologia que trata o Espírito de Deus como uma mera energia ou força espiritual. Temos a paracletologia bíblica, sem adição de conceitos místicos nem subtração de verdades reais da doutrina do Espírito.

   Somos uma igreja que fez da evangelização a sua missão principal. Temos uma consciência de responsabilidade universal com a mensagem do Evangelho de Cristo. A motivação da igreja para a evangelização tem o seu propulsar no poder do Espírito Santo (At 1.8).

   Somos, também, uma igreja que enfatiza a ação presente do Espírito por meio do batismo no Espírito Santo e dos dons espirituais. São duas doutrinas que os evangélicos históricos engessaram no passado, mas nós, que cremos na atualidade dessas doutrinas, somos privilegiados em acreditar que Jesus Cristo ainda batiza no Espírito Santo com a evidência física do falar em línguas espirituais. Cremos que os dons espirituais não podem ser confundidos com dons naturais. Sua atualidade acontece para a edificação da igreja e fortalecimento da sua fé.

   Somos uma igreja que prima pelo zelo doutrinário, pelos bons costumes e pela disciplina corretiva. A despeito de alguns exageros, não podemos fugir ao papel da igreja na sociedade de ter um comportamento social sem apelação ao mundano nem ao pietismo farisaico. Devemos manter nossos bons costumes sem transformá-los em doutrinas de salvação ou de perdição.

   Somos uma igreja que enfatiza a vocação como ponto de partida para o exercício do ministério. O primeiro passo da vocação é o imperativo de Cristo aos seus discípulos, dizendo-lhes: ‘e indo, pregai, dizendo...’ (Mt 10.7). Não se trata da vocação para a salvação, quando todos somos chamados a participar da graça (Gl 1.6). A vocação ministerial implica um chamamento especial para fazerem serviços de liderança, como os citados por Paulo em Efésios 4.11.

   Somos uma igreja que desenvolveu uma forma de governo eclesiástico baseada na autoridade pastoral. Ao longo da história da igreja, alguns tipos distintos de estrutura de governo eclesiástico foram adotados, entre os quais, temos o episcopal, cujo poder é centrado no bispo. Esse tipo de governo foi adotado pela Igreja Romana, Anglicana, Ortodoxa, Metodista Unida e outras siglas do cristianismo.

   Outro sistema de governo é o presbiterial cuja autoridade reside em grupo oligárquico dos presbíteros eleitos em assembleia da igreja. O próprio pastor tem função essencialmente espiritual e está sujeito ao presbitério. Um terceiro tipo de governo eclesiástico é o congregacional, cujo poder pertence à congregação local, autoridade pastoral se restringe ao poder congregacional. A Assembleia de Deus desenvolveu um tipo de governo baseado no princípio da autoridade espiritual. Na América do Norte, o sistema de governo da Assembleia de Deus é o congregacional. No Brasil, ela recebeu a influência européia dos países nórdicos, como Suécia, Noruega e Dinamarca.

Pentecostais ou carismáticos?

   O movimento pentecostal surgiu como ‘movimento espiritual’ no início do século 20, como uma referência da Igreja (sem título ou nome) descrita em Atos dos Apóstolos. Tornou-se um movimento que tinha como objetivo o resgate das doutrinas ensinadas pelos apóstolos depois do Pentecostes. Na virada do século 19, muitos cristãos, insatisfeitos com os desvios da igreja de então, começaram a buscar santidade e renovação das manifestações espirituais que ocorriam nas igrejas do Novo Testamento. O Espírito Santo agradou-se da iniciativa daqueles cristãos sinceros, e o derramamento do Espírito Santo tornou-se uma experiência graciosa. A idéia de movimento pentecostal nasceu da lembrança do Dia de Pentecostes.

   O movimento carismático descreve um movimento dentro do Cristianismo, com igrejas históricas e a própria igreja romana. Esse movimento deu ênfase às manifestações espirituais pelos dons e da glossolalia, mas restringiu-se à experiência, sem nenhum amparo doutrinário. A falta de doutrina abriu espaço para emoções descontroladas e a adesão de experiências atribuídas ao Espírito Santo. Essa falta de discernimento doutrinário fadou o movimento ao insucesso. Posteriormente, o termo carismático ganhou nova roupagem por intermédio de grupos evangélicos históricos. Estes, completamente desprovidos de doutrina bíblica, preferiram embarcar numa canoa furada denominada neo-pentecostalismo.

Nossa identificação teológica
 
   Sempre ouvimos falar sobre a perda de nossa identidade como uma igreja ortodoxa quanto ao comportamento social dos crentes. Respeitosamente, entendo que esse argumento sempre está se referindo à identidade física, à exteriorização comportamental da igreja, quanto ao comer, vestir e andar neste mundo. Entretanto, qual é a nossa identidade teológica? Essa pergunta é respondida com uma declaração: Nós temos uma confissão de fé declarada. O nosso Credo, embora de forma sintetizada, é o suficiente para destacar os elementos fundamentais da teologia bíblica adotada pela Assembleia de Deus.
      
Teologia social (At 6)

   Na verdade, aqueles princípios básicos de vida comunitária são elementos fortes para que a Assembleia de Deus se preocupe com o serviço social. Não adotamos aquela Teologia da Libertação de Leonardo Boff, que vê a igreja apenas numa perspectiva física e humana. Reconhecemos que muito mais se poderia ter feito e se pode fazer, mas essa relação da teologia com o social é perfeitamente aceitável porque somos criaturas de Deus.


 Teologia que fragmenta valores doutrinários

   Existem modismos espirituais que induzem as igrejas ao misticismo e ao mercenarismo. Conceitos das heresias de confissão positiva, de maldição hereditária, da Teologia da Prosperidade e outros mais estão sendo pregados em nossos púlpitos. A primazia da Palavra genuína e pura tem dado lugar a homilias baratas de enlatados estrangeiros.

   A formação acadêmica no campo da teologia deve ser encarada com seriedade e compromisso com a teologia pentecostal. Isso é preocupante tendo em vista a falta de ortodoxia na teologia ensinada em algumas escolas teológicas no contexto da Assembleia de Deus. A absorção de algumas doutrinas, estranhas à ortodoxia pentecostal, tem produzido alguns prejuízos para a unidade teológica da denominação. O surgimento de conceitos doutrinários e teológicos contrários aos fundamentos teológicos das Assembleias de Deus compromete a educação teológica que é importante, mas não é tudo na vida de uma igreja. É preciso que nossa liderança avalie e selecione escolas com seriedade e compromisso com a denominação.


Espiritualidade
 
   Do ponto de vista eclesiástico, ‘espiritualidade’ trata da vida de fé, aquilo que a impulsiona e motiva, e diz respeito à prática religiosa de uma pessoa. Diz respeito ao que a pessoa faz com aquilo que crê. Tem a ver com vida cristã no cotidiano. A vida cristã expressa a nossa espiritualidade pelo que cremos e pelos valores morais demonstrados num tipo de fé ética. Uma vida cheia do Espírito Santo reflete e personifica os valores cristãos no modo de vida. Há os que separam teologia de espiritualidade, mas entendemos que no contexto da nossa igreja, esses dois elementos são inseparáveis.


Nossa eclesiologia
 
   A palavra eclesiologia indica o estudo acerca da Igreja e do que ela representa para Deus e para a sociedade. Por isso, é impossível separar Igreja e Cristo. Nenhuma igreja o será se primeiramente não for cristológica. Cristo é o epicentro da vida da igreja. Ele é o construtor da igreja, porque Ele mesmo declarou que faria isso, quando disse: ‘edificarei a minha igreja.’ Quando uma igreja despreza ou ignora a Jesus como o ponto convergente da sua vida, ela não passa de uma entidade social qualquer, como os clubes sociais existentes nas cidades. Algumas denominações são essencialmente antropocêntricos porque são voltadas para atividades sociais. Nossa Assembleia de Deus se volta para o homem a fim de levá-lo ao Senhorio de Jesus Cristo.

   Dois modos distintos revelavam a vivência da fé da igreja de Jerusalém que serve de modelo através da história. Primeiro, ela desenvolveu ‘uma vivência comunitária’, todos se preocupavam uns com os outros (At 2.46; 4.32,33; 5.42; 12.5,12). Em segundo lugar, ela desenvolveu uma ‘vivência perseverante’. Aqueles cristãos não se deixaram intimidar pelas ameaças, mas mantiveram-se unânimes em todas as coisas. Eles partilhavam juntos as orações e o ouvir a palavra dos apóstolos. A fé era expressada livremente entre eles.

   A Assembleia de Deus é fruto do espírito missionário que impulsionou Daniel Berg e Gunnar Vingren a deixarem outros sonhos na outra América e vieram para o Brasil para lançar a semente do Evangelho sob a égide do Espírito Santo. Eles fizeram mais que pregar o Evangelho e ganhar almas para Cristo. Eles prepararam homens e mulheres para serem missionários.

   Teologia é o processo de exame e reflexão que conduz à construção de doutrinas bíblicas. Por isso, teologia é o processo e não o produto. O produto é a doutrina. Ela é formada a partir de convicções examinadas, ponderadas e afirmadas como verdadeiramente aceitáveis na Igreja de Cristo. Por exemplo, temos o Credo Apostólico, que expressa uma doutrina que foi desenvolvida ao longo da história da Igreja. As demais doutrinas bíblicas como trindade, cristologia, redenção e salvação, santificação e outras mais foram formuladas pelos concílios e reconhecidas como doutrinas originais da Bíblia.

   Tradição é outro elemento importante que fortalece a teologia e as doutrinas formuladas. Segundo os Dicionários, tradição significa ‘a ação de dar, de entregar, de transmitir para outras gerações’. Em termos de religião, ela pode ser o conjunto de doutrinas essenciais que passamos para outras gerações. Nem sempre essas doutrinas estão no texto bíblico de forma explícita, mas são reconhecidas e aceitas por sua ortodoxia e autoridade espiritual. As tradições, porém, não podem ser mais importantes que as doutrinas específicas.


Nossa práxis teológica ameaçada
 
   Na práxis teológica, a oração é um elemento indispensável da vida cristã e age como fator de direção e poder para a vida cotidiana do crente. A teologia da oração ensina o crente a depender de Deus para as suas necessidades físicas e espirituais. A força motriz da igreja deve ser a oração porque garante a providência divina para a sua missão neste mundo.

   Outro elemento essencial é a santidade como fator de separação do mundo. Neste contexto da santidade cristã, o fator ético pode ser identificado na metáfora que Jesus fez da conduta do crente sobre sal e luz no seu discurso do capítulo 5 de Mateus. A ética da igreja se baseia no caráter de Deus. Por isso, os deveres morais e espirituais do cristão devem ser vividos de modo a produzir felicidade para ambos, Deus e o crente.

   O crescimento da Assembleia de Deus é fato incontestável. Nessa expansão da igreja no Brasil e no mundo, desenvolvemos uma dinâmica extraordinária. Mas, do ponto de vista estratégico, deixamos de preencher algumas lacunas. Esses espaços aparecem no sistema de governo que adotamos, bem como em algumas áreas do campo social e, especialmente, do teológico. O Evangelho que pregamos é cristocêntrico, por isso, não podemos apresentar a pessoa de Jesus Cristo aparte de sua obra salvífica. Ele é o centro do conteúdo da evangelização.
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Quero agradecer ao meu amigo Pr. Eliezer Cohen, por ter me agraciado com tão importante artigo escrito pelo Pr. Elienai Cabral, que para nós assembleianos  dispensa
apresentações, pois o mesmo goza de elevadíssimo conceito entre os fiéis em Cristo traduzidos pelo povo em geral e pela liderança eclesiástica.

Que Deus abençoe aos leitores e a todos nós, hoje e sempre!
                                                                          Pr. Renato Moura


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