quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

CRÔNICA NATALINA - Quando estávamos próximos da esquina da Ipiranga com a São João, beirava meia-noite. Um painel eletrônico num prédio dali, não parava de piscar me golpeando: Feliz Natal...

Eu me senti tão solitário, tão sozinho, tão abandonado por tudo e por todos...
Mas, tentei reagir e sair... Quem sabe, procurar os velhos amigos...
E se ganhasse coragem, tentaria até encontrar alguém da família, algum parente.
E se eu me aproximasse dela, de novo?
Bem, nesses dias de festas as pessoas ficam mais sensíveis e ela, certamente, também deve estar mais sentimental. Quem sabe eu poderia aproveitar a ocasião e pedir-lhe perdão.
Aproveitar a ocasião e pedir-lhe perdão...
Até rimou! Então sorri para eu mesmo, e continuei pensando...
–Mas, e se os amigos...
–Amigos? aqueles eram amigos? Quando eu mais precisei deles...  Quando o pneu furou; quando a “grana” acabou e fiquei “lisinho”; quando tudo na minha vida deu errado... Eles sumiram; deixaram-me de lado, deixaram-me falando sozinho.
–E os parentes?
–Têm parentes que... Sem mistério...  Tenho a nítida impressão que, a maioria deles... Ah! todos, sem nem um senão...
–Todos?
–Sim todos. De uma maneira ou de outra, só queriam tirar proveito de mim. Porque sumiram todos quando o “largeant”, o “money”, o dinheiro, chegou ao fim.
–Misericórdia!
–Misericórdia? Até os irmãos da igreja me abandonaram. Nenhuma visita me fizeram; ninguém veio ler a Bíblia na minha casa. Não que eu precisasse, eu sei ler muito bem “poxa”. Mas, seria uma ajudazinha, uma prova de calor humano e amor cristão. Mas, ninguém veio não!
É engraçado como a gente pode falar sozinho! Falar sozinho não; a gente pode pensar de falar sozinho.
–Bem, mas, e ela?
–Ela quem?
– “Hum”... Ela.   
Como eu estava fazendo a minha confissão particular ao meu próprio interior, arrematei:
–Fui tão ingrato com ela! Porque... Bem, recebi da parte dela tanto amor, apoio, carinho, ajuda mesmo... Naquele tempo era só ela, para ser a minha base de sustentação. Só ela me entendia! mesmo assim eu a feri, maltratei, decepcionei. E hoje eu estou aqui, com o coração dilacerado e o ego apertado, espremido, amassadinho; na geladeira tem tudo, mas, não tem nenhuma garrafa de vinho. Estou aqui com essa linda TV de alta definição, mas, sem interesse algum por qualquer programação. Estou sentindo correr na coluna dorsal um espasmo estranho de adrenalina, quando me chegam aos ouvidos os sons, ou vejo um pequeno sinal dessa época natalina.
–Mas, continua, o que mais você está sentindo?
–Saudades... Nostalgia... Melancolia! É um negócio chato, esse que eu estou experimentando. Estou me sentindo assim... Desorientado. Acho que vou pegar o carro e dar uma volta.
–Como pegar o carro, seu tonto. É melhor você sair e esperar um “busão” no ponto. Porque saber você já sabia: o seu carro há dias “pifou” a bateria.
E com a cabeça a mil, mas, – miudinha por dentro – me vi no interior do coletivo que foi para a cidade, para o centro.
Quando estávamos próximos da esquina da Ipiranga com a São João, beirava meia-noite. Um painel eletrônico num prédio dali, não parava de piscar me golpeando: Feliz Natal... Feliz Natal. “Brrrrrrr”
Naquela noite caia uma garoa fina na maior cidade da América do Sul.
Dentro do ônibus só o cobrador e o motorista, e, de passageiros: um casal, e três marmanjos. E eu era um deles.
O casal parecia que estava feliz, porque sorriam... Sorriam baixo e alto, por tudo e por nada!
E eu ali, por cima de todos. Por cima de todos, porque eu estava no último banco do coletivo e ele é mais alto... Eu olhava a noite, as ruas, as lojas que passavam... Passavam... Mas, eu não via nada. Nada!
Entretanto, num momento, olhei para aquele senhor de meia idade que estava sentado à minha frente, próximo ao meio do carro. Ele abaixou a cabeça, olhou para o pulso... Certamente ele viu o seu próprio relógio... Então, me encarou, sorriu e me disse:
–Meia-noite! Feliz Natal.
Foi como se alguém me desse uma bofetada na cara. Estremeci... Acordei... Ruborizei... Levantei-me e fui à direção aquele senhor... Ele era o cobrador.
No caminho fui cumprimentado pelo casal e também pelos outros dois passageiros.
–Feliz Natal. Eu olhava para cada um deles com surpresa, mas, sem graça, não respondia nada.
O ônibus já estava parando no ponto final na Praça da Republica, quando cheguei até o cobrador. Ele continuava sorrindo para mim... E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele falou comigo primeiro:
– Feliz Natal meu amigo!
E eu, então, meio sem jeito, respondi:
– Feliz Natal. Mas, mas, como ainda havia uma frase gravada na minha memória, completei:
– Que o Senhor Jesus abençoe o senhor e toda a sua família!
Ele me olhou diretamente nos olhos e perguntou:
– Você é crente?
Engoli em seco! Fazia tanto tempo que eu não ia à igreja... Mesmo assim, lhe respondi a verdade; quero dizer meia-verdade. Porque, por fora eu poderia ser tido como um crente. Mas por dentro... Nem tanto.
– Sim, eu me encontrei com Jesus há... Melhor dizendo, Ele me encontrou há 5 anos atrás.
– Que maravilha meu irmão... Feliz Natal e muitas felicidades para você!
Naquele instante, aquele senhor cobrador me fez um sinal com a mão pedindo para que eu chegasse ainda mais perto dele, então me falou:
–Vou orar para que Deus oriente a sua vida!
–Eu agradeço... Agradeço mesmo! 
Desci do ônibus ouvindo a voz daquele bom homem... Para que Deus oriente a sua vida... Para que Deus oriente a sua vida... Para que Deus oriente a sua vida a a a...
Sim! Como eu estava precisando da orientação divina!

Comecei a caminhar meio sem destino. Naquele momento os pingos da garoa engrossaram um pouco e o asfalto começava a molhar. Atravessei a República sentindo o frio da noite batendo no meu rosto.
Como São Paulo no Natal é diferente! Ainda mais à noite, e, além disso, chovendo... Não tem muita gente não... E os carros também, não são tantos.  
Esgueirando-me por baixo das marquises dos prédios e embaixo dos toldos das lojas iluminadas, consegui caminhar praticamente toda a Rua 7 de Abril; descer a Conselheiro Crispiniano e voltar pela 24 de Maio até a Praça da República outra vez.
Não sei se foi a caminhada à pé, a água na cabeça, no rosto e nos braços, a palavra do cobrador... Acredito que, tudo isso junto, mais a graça do ilustre aniversariante, o Senhor Jesus Cristo, que me envolveram...
A verdade é que eu me senti renovado! Renovado na força, na esperança e até no amor próprio e ao próximo também.
Sim! Muitas vezes na vida é preciso haver uma renovação. E é imprescindível que essa renovação orientadora venha da parte do “Papai do Céu”.

Quando eu olhei para o ponto do ônibus... Um outro carro da mesma linha estava ali. E pronto para partir... Apertei o passo... Aquele era o último da noite.
Ainda bem que eu consegui entrar a tempo no veículo para voltar para casa!

Dá instrução ao sábio, e ele se fará mais sábio; ensina o justo e ele aumentará em doutrina. O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo a prudência (Pv 9.9,10).

Ainda bem que consegui tempo para voltar!

Matheus Magnus Moura

© Publicação livre – se indicado o autor.

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